Reyem era um velho astuto e um tanto quadrado. Seus paletós, sempre de cores pálidas e tons pastel, com ombreiras largas e mangas mais longas do que deveriam, mostravam sua excentricidade e loucura caminhando juntas todo o tempo.
Seus olhos carregados de ceticismo e sua longa e enrrugada testa mostravam traços de sua maneira de ver as coisas.
Eu podia sentir uma energia pesada emanando de seus retos ombros e repousando sobre os meus. Fingi não sentir nada, encarei-o com olhos perfurantes e esbocei um leve e torto sorriso, sádico e desafiador.
Seus olhos ficaram em chamas e sua boca me respondeu com um largo e intimidador sorriso de lado a lado de seu longilíneo rosto idoso. Curvei-me um pouco, preparando-me para um possível impacto e travei minhas mãos em punho. Ele levantou a cabeça enquanto aspirava todo o ar da sala para dentro de seus pulmões, estufando o peito e me encarando, agora de cima, mais imponente e aparentemente forte do que antes.
O sorriso largo continuava ali, me desafiando a partir pra cima daquele velhote com todas as minhas forças, mas não. Eu não podia me render a este desafio, pois era exatamente isso que Reyem queria, que eu atacasse primeiro, para que ele pudesse me pegar com a guarda baixa.
Esperei. Ele arriscou um passo, olhou para o próprio pé e voltou, balançando a cabeça "Heh heh heh... Se pensa que vou me entregar assim, tão fácil, está enganado, pirralho!" - cuspiu ele por entre os dentes, tentando me fazer ficar cego de ódio -. Como num piscar de olhos, eu havia saltado e estava agarrado ao pescoço rugoso daquele monte de vermes, com uma expressão psicótica no rosto e meus pés apoiados sobre o seu tórax. Nos derrubei ao chão. Sacodindo seu colarinho e ajoelhando sobre seu peito, joguei todo o meu peso sobre ele, que soltou um "Blahg!" de pânico e esbugalhou os olhos.
Fiquei de pé, minha cabeça entre os ombros, dentes cerrados e olhos flamejantes. Estávamos ofegantes, cada um por seu motivo particular. Eu por estar louco para matá-lo e ele por... "Eu não... imaginava que você... pudesse ser tão... ágil... pivete..." ...estar assustado, é claro.
Suspirei e regulei minha respiração. Me segurando para não voar pra cima dele novamente, perguntei "E aí, velhote, já é o suficiente? Desiste?" Ele olhou para baixo, suspirou e me encarou novamente, agora com olhar de desgosto.
-Não vou pagar os dois mil que lhe devo, pivete. Não adianta ficar esmolando... - disse ele ríspidamente -
-Esmolando? Quem aqui está esmolando? Eu não quero saber se você pretende ou não me pagar. Você VAI me pagar... - ameacei -
Havia uma poça de gasolina ao meu lado. Talvez de um carro que estivera ali há algum tempo. Tive uma idéia.
-Ei! Venha cá. - chamei-o levantando as mãos e mostrando-lhe que não estava planejando machucá-lo naquele momento -
O velho veio até mim, apreensivo, fitando-me nos olhos com uma ponta de medo no rosto.
-O que quer, garoto? - perguntou -
-Você não pretende me pagar, certo? - retruquei -
-Não.
-Você tem o dinheiro?
-T-Tenho, mas...
-Mas o que?! Não quer me pagar, não é? - levantei a voz -
-Exatamente. Não vou lhe pagar, não importa o quanto me irrite para que eu o faça.
Triste erro Reyem.
-Então está bem. Se não quer me pagar, não tem problema. Afinal, eram só duas mil pratas! - gargalhamos - Venha cá meu caro Reyem, me dê um abraço!
O velho Reyem chegou ainda mais perto e abriu os braços devagar, colocando-os envolta do meu casaco. Abracei-o por um segundo e então girei meu corpo e o joguei, por cima de meus ombros, de costas na poça de gasolina. Reyem gemeu de dor e logo se levantou, me observando assustado e ainda surpreendido.
-P-Pivete! Desgraçado! - gritou -
-É tudo o que tem a dizer, Reyem? -provoquei-o, querendo que se aproximasse de novo-
-Como pude me deixar levar pela sua conversa?! - Reyem pegou de seu bolso um canivete suíço, dos grandes, e começou a tentar abrir uma das lâminas -
-Hmmm... Interessante. O que pretende fazer com isso, múmia?
-E-Eu vou... T-Te matar, pirralho! Assim que eu conseg--
Pulei pra cima dele, jogando-o alguns passos para trás e fazendo com que derrubasse o canivete no chão. Saquei meu isqueiro, olhei para ele, que agora estava mais confuso e surpreendido que antes, e abri um sorriso sádico enquanto passava minha língüa entre meus dentes e umidecia meus lábios de forma desafiadora.
Ascendi o isqueiro e parti pra cima dele, que estava petrificado tentando entender o que estava acontecendo. Seu paletó se imflamou num piscar de olhos. O velho agora estava em chamas, rolava no chão desesperadamente para tentar se livrar do fogo, mas isso só piorou a situação, pois num determinado momento, ele rolou para a poça de gasolina em que caira antes.
-Aquela dívida, assim como você, durou tempo demais, Reyem... Tempo demais...
Acendi meu último cigarro e fui para a Avenida Leste, onde Bernard me aguardava em seu escritório com um copo de café e batatas fritas amanhecidas.
Bati à sua porta e ele a abriu. Estava com os cabelos oleosos bagunçados, gravata frouxa e, além de aparentar ter acabado de acordar de um longo cochilo sobre os papéis em sua mesa, emanava um sutil cheiro de mofo dos seus "sapatos da sorte".
-Olá, Max...! - disse ele, devagar, ainda confuso por ter sido acordado pela porta às quatro e quinze da manhã -
-Me desculpe, Bernard. Mas vim buscar meu pagamento. Já me livrei do Reyem. - informei-o -
-Foi mais rápido do que o esperado.
-Eu lhe avisei que não demoraria... Acredita que o velhote nem notou que não era você? Abriu o jogo logo de cara.
-Hahahaha! - ele riu - Meu pai estava mesmo ficando louco... Velho caduco! Hehehehe...
Me levantei da velha cadeira em que havia sentado e estendi a mão para uma breve despedida. Bernard levantou-se logo em seguida e apertou minha mão com força, expressando confiança em meu trabalho pela primeira vez.
Saí do escritório enquanto vestia meu sobretudo e pegava o pacote de cigarros do bolso.
-Ah, vazio... - lembrei-me -
Em dois dias, recebi o pagamento pelo trabalho e Bernard me ligou, pedindo para que eu o encontrasse na Loja de Tortas Skiller naquela noite.
-É, parece que hoje teremos mais um "acidente"...
segunda-feira, 6 de abril de 2009
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Chuva Cinzenta
A velha mendiga estava agarrada a uma metade de pão suja que havia encontrado na sarjeta há alguns instantes. Suas mãos, enegrecidas pela imundice das ruas, o seguravam tão firmemente que mesmo um pão duro como aquele, se enrrugava entre seus dedos. Ela abriu sua pequena e murcha boca desdentada e, enquanto fitava o pão esbugalhando seus olhos gelatinosos, o abocanhou ligeiramente, como um cão faminto abocanha um suculento bife morno.
Caía uma fina garoa e os carros passavam rapidamente nas ruas. Um homem, razoavelmente bem vestido, passava apressado pela calçada, segurando seu chapéu, para mantê-lo na cabeça, e forçando os olhos para tentar enxergar através de seus óculos embaçados. A calçada estava quase vazia, mas era o suficiente para que ele pudesse se esbarrar com vários ombros durante o trajeto. Aquela era uma típica rua de comércio inglesa, com diversos restaurantes, bistrôs, antiqüários e floriculturas. E era numa destas lojas de flores que ele pretendia entrar. Continuava andando apressado e se esbarrando, até que enfiou o pé numa poça d'água acinzentada, molhando seu sapato de couro negro e meia perna de suas calças. -Inferno! - exclamou ele após ter dado uma pequena pausa em seu ritmo para avaliar a situação. -Ah! Tanto faz, já estou quase todo molhado mesmo... - pensou, conformado e enraivecido.
A chuva aumentara, os esbarrões agora haviam diminuído e o roçar de grarda-chuvas há milímetros de seus olhos faziam com que ele se mantivesse numa mesma linha, como um trem nos trilhos, para que não acabasse por se cegar. Uma clareira entre os guarda-chuvas apareceu alguns passos a frente e ele foi até ela, sentindo-se aliviado, parou com as mãos ajeitando o paletó e olhou para cima, admirando a estrutura de um velho e baixo prédio. Enfim havia chegado ao seu destino, a Floricultura Makiavel. Um garoto apressado vinha com sua bicicleta a toda velocidade, abrindo caminho entre os pedestres que, agora, lotavam a calçada. Passou tilintando na frente de James (o nosso protagonista), obrigando-o a dar um passo rápido para trás. Nisso, James empurrou algo com as costas. Era a velha mendiga, que agora dormia em pé, escorada no poste à frente da floricultura. James olhou para ela com um olhar assustado e partiu em direção à porta da floricultura. Pôs seus dois pés para dentro e suspirou aliviado por, enfim, ter se abrigado da chuva.
Caía uma fina garoa e os carros passavam rapidamente nas ruas. Um homem, razoavelmente bem vestido, passava apressado pela calçada, segurando seu chapéu, para mantê-lo na cabeça, e forçando os olhos para tentar enxergar através de seus óculos embaçados. A calçada estava quase vazia, mas era o suficiente para que ele pudesse se esbarrar com vários ombros durante o trajeto. Aquela era uma típica rua de comércio inglesa, com diversos restaurantes, bistrôs, antiqüários e floriculturas. E era numa destas lojas de flores que ele pretendia entrar. Continuava andando apressado e se esbarrando, até que enfiou o pé numa poça d'água acinzentada, molhando seu sapato de couro negro e meia perna de suas calças. -Inferno! - exclamou ele após ter dado uma pequena pausa em seu ritmo para avaliar a situação. -Ah! Tanto faz, já estou quase todo molhado mesmo... - pensou, conformado e enraivecido.
A chuva aumentara, os esbarrões agora haviam diminuído e o roçar de grarda-chuvas há milímetros de seus olhos faziam com que ele se mantivesse numa mesma linha, como um trem nos trilhos, para que não acabasse por se cegar. Uma clareira entre os guarda-chuvas apareceu alguns passos a frente e ele foi até ela, sentindo-se aliviado, parou com as mãos ajeitando o paletó e olhou para cima, admirando a estrutura de um velho e baixo prédio. Enfim havia chegado ao seu destino, a Floricultura Makiavel. Um garoto apressado vinha com sua bicicleta a toda velocidade, abrindo caminho entre os pedestres que, agora, lotavam a calçada. Passou tilintando na frente de James (o nosso protagonista), obrigando-o a dar um passo rápido para trás. Nisso, James empurrou algo com as costas. Era a velha mendiga, que agora dormia em pé, escorada no poste à frente da floricultura. James olhou para ela com um olhar assustado e partiu em direção à porta da floricultura. Pôs seus dois pés para dentro e suspirou aliviado por, enfim, ter se abrigado da chuva.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Poema Perdido
Às sombras eu irei,
Nas trevas viverei
Suas vidas de mim dependem
Seus sonhos não os defendem
Nossas forças quando unidas,
Não poderão ser destruidas
A Guerra chegará
E mais um reino cairá
Meus guerreiros sombrios derramarão
Sangue com ira,
Em gratidão
À vida eterna que lhes dei
Em troca da sede que saciei.
Nas trevas viverei
Suas vidas de mim dependem
Seus sonhos não os defendem
Nossas forças quando unidas,
Não poderão ser destruidas
A Guerra chegará
E mais um reino cairá
Meus guerreiros sombrios derramarão
Sangue com ira,
Em gratidão
À vida eterna que lhes dei
Em troca da sede que saciei.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Trevas
O lugar estava escuro e as paredes se tornaram praticamente invisíveis. O chão e o teto se fundiam na escuridão sem fim. Comecei a andar, vagaroso e apreensivo, naquela maciez sombria. Podia sentir o ar envolta de mim, tocando cada parte do meu corpo, dei mais um passo para frente, me senti pressionado por algo que eu não conhecia, meus ombros se encolheram perto do pescoço, talvez pela ponta de medo que eu sentira repentinamente. Meu corpo estremeceu e meus olhos se arregalaram, em busca de uma rota de fuga, mas não havia nada para ser visto e, provavelmente, era um lugar fechado. Me parecia um corredor... Encostei na parede mais próxima e deslizei com minhas costas por ela até chegar à outra. Meus sentidos estavam aguçados como jamais haviam estado. Eu começara a enxergar as coisas. Então corri, não fazia idéia de pra onde estava indo, apenas deixei minhas pernas me guiarem e estendi os braços na frente do meu corpo para, eventualmente, me proteger de possíveis colisões. Virei à esquerda rapidamente, dei mais alguns passos rápidos e então parei. Estava ofegante e continuava sem saber onde estava. A pressão estranha sobre mim parecia ter ficado para trás. Apoiei minhas mãos nos joelhos e tentei regular minha respiração. Inútil. Me sentei no chão e apoiei minha cabeça na parede, fechei meus olhos e respirei fundo. Tudo estava tão calmo agora...
sábado, 8 de novembro de 2008
Marionetes de rua...
Um pequeno boneco! - exclamou o mais alto dos dois ao menino, que com seus grandes e fascinados olhos, observara atentamente o brinquedo durante toda a performance. O homem mais baixo se aproximou e, com um suave gesto, acariciou os macios e curtos fios de cabelo do menino, que agora olhava quase como se estivesse hipnotizado por sua cartola multicolorida apoiada levemente sobre uma de suas grandes orelhas. O homem sorriu com sua pequena boca, empurrando seu lábio inferior com os grandes e angulosos dentes que mantivera guardados durante todo o tempo do espetáculo. O mais alto franziu a testa de modo carinhoso, notando a expressão de quase-pânico do garoto ao deparar-se com tão grandes dentes. Estendeu-lhe a mão, que portava uma velha luva sem dedos e o garoto a recolheu timidamente para um de seus bolsos, abaixando a cabeça e se afastando, calma, porém alegremente, enquanto alisava o bolso cheio, com satisfação.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Apenas um fragmento...
Quanto a isso, ele não se preocupava. Suas pernas, doloridas como sempre, estavam agora confortavelmente dobradas sob uma cadeira, seus ombros estavam arqueados sobre a mesa enquanto seus braços serviam de apoio para a pesada cabeça. Sua face atenta tinha dois olhos quase secos, que fitavam o vazio da mesa e sua boca pendia entreaberta. Eu não sabia como reagir, estava ali, observando-o sem mexer um músculo, me escondia atrás da minha negra cortina capilar enquanto fingia prestar atenção ao professor, que falava entusiasmado sobre algo relacionado a eletricidade, ziguezagueando entre as carteiras enquanto passeava pela sala.
Fiquei pensando em sair dali, mas por algum motivo, meu corpo não se movia. Talvez fosse o frio. Nevava lá fora e eu podia sentir a corrente gélida de ar passar pela minha nuca como uma lâmina.
Olhei mais atenta para fora e pude ver a neve cobrindo a copa das árvores, formando lisos e belos padrões. Por um canto da janela, pude ver o capô de meu carro coberto por uma camada espessa de neve. "Droga! Agora terei que tirar toda essa porcaria daí antes de entrar no carro, e vou me molhar..." pensei choramingando. Eu detestava ficar molhada, principalmente em dias frios. Coisa que não era incomum naquela cidade chuvosa, vazia e cinzenta, onde eu estava morando, contra a vontade, agora.
Fiquei pensando em sair dali, mas por algum motivo, meu corpo não se movia. Talvez fosse o frio. Nevava lá fora e eu podia sentir a corrente gélida de ar passar pela minha nuca como uma lâmina.
Olhei mais atenta para fora e pude ver a neve cobrindo a copa das árvores, formando lisos e belos padrões. Por um canto da janela, pude ver o capô de meu carro coberto por uma camada espessa de neve. "Droga! Agora terei que tirar toda essa porcaria daí antes de entrar no carro, e vou me molhar..." pensei choramingando. Eu detestava ficar molhada, principalmente em dias frios. Coisa que não era incomum naquela cidade chuvosa, vazia e cinzenta, onde eu estava morando, contra a vontade, agora.
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